Correnteza
A idade nunca me assustou.
Acho que ate a espero com curiosidade.
Não que não tenha vaidade, ou não anseie pelas formas e vivacidade das carnes da juventude. Mas porque gosto das marcas do tempo, gosto das rugas de lembranças saudáveis e dos vincos da vida vidida, das preocupações e da experiência.
É freqüente me pegar admirando os rostos dos idosos.
Gosto do que vejo: gente que viveu e não nega a idade.
Não sei porque, mas acho que vou ser mais bonita quando ficar velha . Porque então não terei que obedecer às formas da ditadura do belo que obriga as pessoas a ficarem presas a padrões. Poderei ser eu mesma, com minhas formas ditadas unicamente pela natureza, pelo biotipo do meu ser.
Nunca tive as formas das ninfas. E se já fui bela, sempre foi pelo conjunto. Nunca tive formas marcantes: cintura fina, pernas longas, rosto perfeito...
Ao contrário. Meu corpo sempre foi suave. Curvas suaves, colo macio e pernas bem feitas.
Meu rosto sempre foi mais exótico que bonito; mais interessante que artístico.
Nunca fui modelo de nada e também nunca quis se-lo.
Mas se peco em falta de beleza clássica, meu corpo excede em generosidade. Assim, nunca fui de poucas carnes, nem de sentimentos limitados.
E se a idade me trouxe mais volume, folgo em dizer que aos 40 já podem ver em mim o que serei aos sessenta, aos setenta. E que a força da gravidade pode vir sossegada porque minhas carnes, minha pele, não são o suficiente para sofrer grandes danos.
E ca entre nos, não há tombo que um bisturi não levante. Nem há sinal que o tempo deixe que o amor pela vida não embeleze.
Portanto não espere de mim que toque em uma linha sequer no meu rosto. Deixarei o tempo passar sobre ele. E os remendos que fizer, tenha a certeza, serão apenas para eliminar o que for grotesco, o que puder de alguma forma impedir meus banhos de mar, minhas caminhadas pela areia.
Em fim que atrapalhe o envelhecer com dignidade.
Escrito por Célia às 21h17
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Lida
Aprender a cantar:
abrir a boca e não errar o tom, seguir o ritmo.
Afinar
Aprender a dançar:
em par ou sozinha, acertar o compasso do samba, valsa, bolero ou tango.
Balançar.
Viver perto do mar:
andar na areia, lavar a alma a observar o movimento das marés.
Boiar.
Ser mais branda:
perder certezas e arrancar egoísmos,
Levitar
Tanta lida para tão pouca vida.
Escrito por Célia às 08h24
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Menina Moça
Todo dia, naquela mesma hora, apontava no final da rua aquele menino. Menino não, rapazote.
Passava sempre sorrindo para ninguém, com um jeito despreocupado de quem já fechou a loja, apagou as luzes, afastou problemas e pode ver a vida passar.
Foi por acaso que Dina o viu.
Ela estava em seu quarto; janela para a rua, enrolando tarefas, esquecendo as provas, buscando distração. Não que motivos para tal faltassem a ela. Justo ela que era só desaviso, toda sonhar...
A mãe já tinha chamado seu nome vezes sem conta.
Já estudou ?, clamava da cozinha. Apontando na porta perguntava: já arrumou o quarto? E a tarefa? ,
Ufa! Quanto compromisso. Quantos afazeres....
Bom mesmo era fugir até a geladeira, arriscar cutucar o bolo, morder um doce ou cansar de bulir com os gatos.
E foi assim que Dina deixou de ser criança. Os dedos ainda melados da cobertura de brigadeiro, passando em frente a sua janela, já pronta para continuar fingindo mexer no ‘ninho de rato’ – como sua mãe chamava sua arrumação de roupas.
A princípio, mais percebeu do que viu o menino descendo a rua. Mas logo parou e, no canto da janela, pôs-se a observar com um quê de descaso.
Achou ele meio metido com aquela mochila nas costas e ar de distraído Porém, mesmo assim achou de cuidar bem dos detalhes: o cabelo liso e escuro e o jeito desengonçado de andar.
Ele passou e Dina voltou a remexer seus guardados.
Os gatos continuaram correndo pela casa perseguidos por Dina a miar.
Os doces apareciam beliscados de dedinhos.
O quarto acostumava desarrumado.
E a mãe... Ah, a mãe continuava a conversar e a cobrar os estudos, a responsabilidade e jeitos de mocinha.
Uma vez por dia porém, a casa se aquietava.
Nem gatos nem Dina miavam.
Durante segundos preciosos, uma pose de mocinha tomava Dina de assalto, sempre na mesma hora, sempre em frente a janela.
Escrito por Célia às 19h24
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pegadas de areia
I
Deitado de lado, cabelos grisalhos, o velho esperava.
Estranhamente desdenhou da calçada. Escolheu o hall da recepção de uma loja .
Vestia um terno surrado e uma camisa que há muito tempo certamente fora branca.
Suas roupas pareciam à vontade ali, no hall aberto para a rua de movimento.
Tão tranqüilo, quase sereno. No seu rosto branco de barba rala desenhava-se
uma boca estranhamente aberta e seca , contrastando com lábios grossos onde pairava um meio sorriso desapontado.
Magro, suas mãos longas com dedos de pianista estavam estendidas para o nada.
Estava ele no seu ressonar tentando alcançar algo?
Suas pernas levemente dobradas acabando em sapatos usados corriam atrás de que sonhos ?
Talvez nenhum.
Estático demais.
Quase jazia naquele local que as pessoas desviavam o passar apressado e olhar vazio de interesse.
Não havia nele os sinais característicos da mendicância. Apenas o desleixo do desespero.
Espalhado naquele chão, trazia no semblante aquela falta de luz do não mais enxergar
saída para as ansiedades, desejos e necessidades.
Dele exalava um ar de desamparo, de esmolar sentimentos.
Aquele ar que todos os vivos escondem sob máscaras de tarefas e compromissos.
II
Ali, parado, gritava silencioso suas histórias de desatino e abandono.
Mas ninguém queria ouvir
Surdas e mudas, as pessoas simplesmente passavam.
Alguns olhares chegaram a demonstrar curiosidade acostumada: "mais uma mazela neste mundo cão.”
Outros, cegos de emoção, ignorantes de vida , nem viram o corpo.
O velho continuava apenas um transtorno para a recepcionista da loja que
se limitava a olhar constrangida para os clientes obrigados a pisar passos tortos para chegar ao balcão.
Escrito por Célia às 15h35
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pegadas de areia
III
Nada tinha de especial a pessoa que resolveu parar e colocar entre as suas, as mãos velhas e sujas.
Mesmo assim o gesto simples pareceu um sinal acordado previamente entre os dois.
Ele abriu os olhos vermelhos. Sorriu suavemente.
Estava bem, apenas amassado, de ressaca da vida e terrivelmente triste.
Sim, com ajuda poderia levantar-se.
Seu cheiro azedo e dormido não parecia incomodar a pessoa que usou seu corpo para amparar a magreza oscilante daquele corpo até há pouco abandonado.
IV
Também nada fez a pessoa de surpreendente.
Caminhou uma quadra ao seu lado. Sentou-se com ele em um restaurante de esquina . Serviu-lhe um prato e água fresca.
Disse que continuasse com esperança e foi embora.
Durou o quê aquele encontro? Alguns poucos minutos?
Ninguém entendeu direito o gesto daquela pessoa.
O velho não conhecia seu nome, ou endereço. Não sabia se lia livros, se cantava no banheiro, se cultivava um jardim...
Mas, ao vê-la afastar-se seus olhos alargaram um sorriso.
Tinha certeza de que era aquela pessoa que esperara por dias, até semanas...
Ela fizera o sinal
Acendera novamente a pequena luz no seu caminho.
Por mais um pouco poderia carregar aquele gesto.
Sim, agora poderia seguir, caminhar mais um trecho.
Ter esperança de que antes daquele ponto trêmulo à sua frente se apagar, mais uma mão acendesse outra vela.
Não estava mais só.
Escrito por Célia às 15h32
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Primeiras horas
Foi de repente.
Nenhum som precedeu o ato. Nem mesmo um sutil movimento antecipou o gesto.
Os olhos sem cor fixavam o branco. O pensamento vagava o infinito, perdido em silêncios sinceros.
Nem um sussurro balançou na brisa. Nenhum gemido afligiu o ser.
Gritar para quê? Sussurrar o quê?
Anunciar o quê, se cada primeira manhã é sempre assim:
linda e sutil; leve e imprecisa.
Se as primeiras horas marcam sempre o compasso de quem espera.
O quê? Por quem? Porquê?
Escrito por Célia às 21h26
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